Diferentemente do mercado regulado, onde a compra e venda de créditos de carbono é mandatória para determinados setores, o mercado voluntário é movido pela iniciativa das próprias organizações. Neste contexto, a certificação de crédito de carbono surge como um elemento crucial — garantindo que os créditos negociados representem, de fato, reduções reais, mensuráveis e adicionais de emissões de gases de efeito estufa.
Certificação de crédito de carbono
A certificação constitui o elo crítico de integridade e confiança no mercado de carbono. É por meio dela que se sustenta tanto a credibilidade ambiental dos créditos quanto sua aceitação econômica em transações nacionais e internacionais.
A certificação validada por organismos independentes busca assegurar que os projetos geradores de crédito — como restauração florestal, energia renovável ou captura de metano — sigam metodologias reconhecidas e alcancem os resultados prometidos.
Essa confiança é especialmente importante no mercado voluntário, onde não há uma autoridade única que imponha regras ou fiscalize transações. A certificação, portanto, protege compradores e vendedores, fortalece a integridade do mercado e incentiva investimentos em projetos com impacto ambiental positivo.
Desafios para escalar a certificação de crédito de carbono no Brasil
Apesar das vantagens óbvias, o avanço da certificação de créditos de carbono enfrenta desafios, especialmente no Brasil, destacando-se a complexidade técnica e o custo do processo de certificação para os potenciais clientes. Projetos precisam ser desenhados com rigor metodológico, frequentemente demandando consultorias especializadas, monitoramento contínuo e auditorias independentes — o que pode ser inacessível para iniciativas menores ou comunitárias.
Outro desafio é a capacidade institucional. Existem poucos organismos certificadores atuando no país, o que cria gargalos na avaliação e prolonga o tempo até que os créditos sejam validados e registrados. Isso pode desestimular a entrada de novos projetos no mercado e limitar a escala do setor.
Além disso, a diversidade de biomas brasileiros e a complexidade socioambiental de muitas regiões tornam a padronização metodológica um desafio extra para os certificadores. Isso requer adaptações criteriosas das metodologias existentes ou o desenvolvimento de novas, que considerem realidades locais sem comprometer a integridade das reduções de emissões.
Lições da consulta pública e próximos passos para fortalecer a certificação no país
Para compreender melhor o cenário da certificação de carbono no Brasil, o BNDES e o Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) realizaram uma Consulta Pública, no início de 2025, para entender os principais gargalos deste serviço. A página com os resultados deste trabalho e o relatório completo da Consulta podem ser encontrados
A Consulta apontou uma série de obstáculos, como os destacados anteriormente, que precisam ser enfrentados para que o mercado voluntário de carbono no país ganhe escala.
Estudo “Certificação de Crédito de Carbono no Brasil”
O BNDES, portanto, lançou a Seleção Pública FEP Fomento 1/2026, em 05.1.2026, para contratação do ´parceiro executor do estudo “Certificação de Crédito de Carbono no Brasil”. O edital ficará aberto para recebimento de propostas até 9.2.2026.
O estudo técnico tem como objetivo realizar:
- Diagnóstico atual da oferta dos serviços de certificação de créditos de carbono e de organismos de verificação e validação;
- Análise de lacunas metodológicas dos principais padrões de certificação para adequação à realidade brasileira e verificação da necessidade de criação de metodologias inexistentes;
- Análise de diferentes modelos de governança do processo de certificação de carbono em âmbito nacional e internacional, identificando melhores práticas para garantir adicionalidade, integridade ambiental e evitar conflito de interesses;
- Elaboração de um guia descritivo sobre normas e legislação nacionais relacionadas à certificação de créditos carbono para aprimorar e facilitar os processos de monitoramento, relato e verificação (MRV);
Avaliação de redução de custos e escalabilidade do processo de certificação de créditos de carbono, visando ao acesso de projetos de menor escala, comunidades locais, povos indígenas e comunidades tradicionais, pequenos produtores, cooperativas e assentamentos rurais, entre outros, garantindo justiça climática e repartição equitativa dos benefícios.
O potencial do Brasil no mercado de carbono
O país já desempenha papel relevante no mercado voluntário de carbono, com projetos em diferentes biomas e setores, e tem potencial para ampliar sua atuação por meio da atração de novos investimentos.
Os setores de agricultura, florestas e outros usos da terra (Afolu), em razão da ampla base de recursos naturais do Brasil, assim como os setores de resíduos e de novas tecnologias de baixo carbono, nos quais o país conta com vantagens competitivas, oferecem oportunidades relevantes para a geração de créditos de carbono altamente atrativos no mercado global.
Atividades como conservação de florestas nativas, restauração de ecossistemas, projetos agroflorestais, concessões florestais, bioenergia e recuperação de pastagens degradadas se destacam como possíveis fontes de geração de créditos de carbono de alta integridade.
Entretanto, a biodiversidade e as peculiaridades dos biomas existentes no país, como a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica enfrentam algumas dificuldades no processo de certificação de carbono no mercado voluntário, pois as metodologias atuais não conseguem representá-los de forma integral.
Para que o potencial brasileiro seja fortalecido, é necessário enfrentar os desafios de certificação de projetos já apontados, estruturando um sistema de certificação robusto, transparente e alinhado às melhores práticas internacionais no país.
À medida que o mercado de carbono evolui, a certificação — aliada a um ambiente regulatório claro e confiável — permitirá que empresas, comunidades e investidores caminhem juntos em direção a uma economia mais sustentável e resiliente.