Impactos do tarifaço na balança comercial brasileira
O Estudo especial do BNDES 66 comenta os impactos da tarifa imposta pelo presidente Donald Trump no Brasil.
O Estudo especial do BNDES 66 comenta os impactos da tarifa imposta pelo presidente Donald Trump no Brasil.
O novo regime de política comercial instaurado pelo presidente Donald Trump em 2 de abril de 2025 – o maior choque tarifário desde 1930 – pôs em xeque décadas de relações comerciais estáveis com diversos países, inclusive com o Brasil.
Em meados de agosto, houve a imposição de uma alíquota majorada, que incluía inicialmente cerca de dois terços dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Por meio de diplomacia e da atuação do empresariado brasileiro e de companhias estadunidenses para as quais o aumento das tarifas foi mais relevante, a lista de exceções ao tarifaço foi sendo progressivamente ampliada.
Ainda assim, o movimento dos Estados Unidos gerou impactos relevantes para as relações comerciais entre os dois países, em especial para as exportações brasileiras.
No entanto, apesar do choque tarifário, o saldo comercial brasileiro de bens encerrou 2025 superavitário. Os dados revelam o impacto limitado das tarifas estadunidenses sobre a pauta exportadora brasileira como um todo, com a relevância do redirecionamento das exportações para novos mercados na redução dos efeitos negativos esperados.
Desde 2009 o Brasil registra saldos comerciais anuais negativos com os Estados Unidos, tendo sido os maiores déficits registrados em 2013 (superciclo das commodities, com apreciação cambial do real) e 2022 (alta de importações de bens de capital pelo Brasil no pós-pandemia, com gargalos de logística distorcendo os fluxos comerciais).
Em 2025, o ano foi encerrado com saldo negativo de US$ 7,5 bilhões de dólares no comércio de bens, resultado da queda de 6,6% no valor das exportações brasileiras em relação a 2024, que ocorreu em paralelo ao aumento de 11,3% no valor das importações de produtos oriundos dos Estados Unidos.
Por outro lado, a balança comercial total de bens do Brasil encerrou o ano de 2025 superavitária em US$ 68,3 bilhões, com aumento de 3,5% no valor das exportações e de 6,7% no das importações. Tal descompasso evidencia a importância de novos mercados nas relações comerciais entre o Brasil e o resto do mundo.
A perda de participação dos Estados Unidos na balança comercial brasileira não é um evento recente. Se no início dos anos 2000 cerca de 24% das exportações do Brasil eram destinadas aos Estados Unidos, essa porcentagem sofreu uma queda gradual até atingir 10% em 2009, com oscilações moderadas nos anos subsequentes. Em 2025, a participação dos Estados Unidos como mercado de destino das exportações brasileiras, que era de 12% em 2024, caiu para 10,8%.
Elaboração própria a partir de https://comexstat.mdic.gov.br/pt/comex-vis.
Ao examinar dados mensais, observa-se que o valor das exportações de bens para os Estados Unidos no período de agosto a dezembro de 2025, após a entrada em vigor da tarifa extraordinária, recuou 21,3% em relação ao observado no mesmo período de 2024.
As barreiras comerciais impostas pelo governo Trump atingiram de maneira desproporcional as regiões do Brasil.
Estados da região Sul, cuja pauta é mais concentrada em produtos de madeira, móveis, calçados e couro, fumo e algumas máquinas e equipamentos, tiveram mais de 80% das suas exportações tarifadas em 50%, com queda de 41,7% na variação interanual das exportações para os Estados Unidos de agosto a dezembro de 2025.
Os estados da região Centro-Oeste, especialmente Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além do Tocantins, na região Norte, que registram elevado volume de venda externa de carne, tiveram suas exportações afetadas de forma relevante.
No Sudeste, Minas Gerais teve queda interanual de 43% nas exportações para os Estados Unidos no mesmo período.
No Nordeste, as exportações da cadeia do mel/silvicultura do Piauí apresentaram redução acima de 50% no período. Por outro lado, o Ceará, estado com maior crescimento percentual no total de exportações para o mundo, com destaque para ferro e aço, e Sergipe, com aumento das vendas de petróleo, foram duas exceções no quadro geral de redução nas vendas externas para os Estados Unidos.
Analisando os dez produtos mais relevantes nas exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2024, é possível perceber queda nas exportações de cinco deles – combustíveis, ferro, reatores nucleares, café e carnes –, apesar do aumento nas exportações totais do país.
Dos setores nos quais a participação dos Estados Unidos representou mais de 40% das exportações totais em 2024, apenas as aeronaves e aparelhos espaciais e suas partes apresentaram uma variação interanual positiva entre agosto e dezembro de 2025.
A despeito da retração das exportações brasileiras para os Estados Unidos, o desempenho do comércio exterior em 2025 evidencia o sucesso da estratégia de diversificação de mercados, com destaque para o fortalecimento das relações comerciais com países asiáticos, cuja demanda pelos produtos brasileiros compensou a queda das exportações para o país norte-americano.
A China, principal destino dos produtos brasileiros, importou do Brasil US$ 100 bilhões em 2025, um aumento de 6% em relação a 2024 e de 30% de agosto a dezembro na variação interanual. Óleos brutos de petróleo, e minério de ferro e soja representam, em conjunto, cerca de 74% das exportações brasileiras para o país asiático.
O Brasil registrou ainda um aumento de 30,2% das exportações para a Índia entre 2024 e 2025 (e 50% variação interanual de agosto a dezembro), sendo grande parte dos produtos exportados pertencente às indústrias de transformação (açúcar e gorduras e óleos vegetais) e extrativa (óleos brutos de petróleo).
Destaca-se também o crescimento das exportações para países da América Latina, como Chile, Argentina e México. De agosto até dezembro, houve um crescimento de 25% na variação interanual das exportações para o Chile. Argentina e México tiveram um desempenho mais modesto, porém relevante em termos de participação nas exportações dos produtos brasileiros.
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