A crise climática tem levado os governos a trabalhar para ampliar a descarbonização produtiva e a preservação ambiental. Essas duas pautas se inserem no contexto de fortalecimento do desenvolvimento sustentável e de expansão de mercados financeiros para investimentos verdes, tendências relevantes da última década.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem um longo histórico de atuação em desenvolvimento sustentável e, nesse contexto, vem ampliando e diversificando suas fontes de recursos com foco na sustentabilidade ambiental, o chamado green funding.
Histórico de atuação do BNDES em sustentabilidade ambiental
Em meados da década de 1970, o BNDES estabeleceu convênio com a Secretaria Federal de Meio Ambiente, iniciando uma trajetória de inclusão da pauta ambiental em suas atividades-fim.
Em 1980, o Banco realizou a primeira captação externa voltada ao meio ambiente, com o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) para controle de poluição.
Mais tarde, em 1986, o Banco criou o Programa de Conservação do Meio Ambiente; em 1992, criou o Departamento de Meio Ambiente, o primeiro em um banco brasileiro; e finalmente, em 2006, criou linhas de financiamento específicas para investimentos sociais e ambientais.
A partir daí foram criados diversos programas e protocolos. Em 2009 foi lançado o Programa Nacional sobre Mudança do Clima, estando vinculados a ele o lançamento do Fundo Amazônia – que conta com doações internacionais para aplicação de recursos não reembolsáveis na conservação e uso sustentável da Amazônia e é gerido pelo Banco – e a criação do Fundo Clima – cujos recursos reembolsáveis são operados pelo BNDES –, ambos coordenados pelo Ministério do Meio Ambiente. Esses dois fundos foram as primeiras fontes estáveis de funding direcionado a questões ambientais pelo BNDES, mesmo que representando parcelas muito pequenas do passivo da instituição até anos recentes.
Posteriormente, o Banco captou recursos de mercado para fins ambientais. Em 2017, o BNDES foi o primeiro banco brasileiro a fazer uma emissão internacional de títulos verdes (green bonds), arrecadando US$ 1 bilhão, com prazo de sete anos e taxa de retorno de 4,8% a.a. na Bolsa Verde de Luxemburgo. Em 2020, foi o primeiro a lançar letras financeiras verdes (LFV) no mercado doméstico, arrecadando R$ 1 bilhão com títulos de prazo de dois anos e direcionados a projetos de energia eólica e solar.
Assim, podemos ver que desde a crise de 2008, expandiram-se as linhas e desembolsos relacionados ao desenvolvimento sustentável e surgiram as primeiras fontes de funding destinadas a esse fim. O BNDES seguiu de forma pioneira o que veio a ser o consenso de desenvolvimento sustentável, que se consolidou no âmbito internacional apenas com a Agenda 2030 lançada pela ONU em 2015. Após anos de redução da atuação ambiental, entre 2016 e 2022 o Banco retomou essa pauta a partir de 2023, rapidamente tornando-se liderança em algumas áreas. Destaca-se, por exemplo, como o banco que mais investe em energia renovável no mundo.
O funding verde no BNDES
Desde 2023, de modo a ampliar o seu nível histórico de atividade, o BNDES vem buscando diversificar suas fontes de recursos, tendo em vista as restrições à expansão do financiamento via Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).
Essa diversificação de fontes de funding e reestruturação para lidar com as crises recentes (social, climática e comercial) refletem a nova orientação estratégica, que foi chamada de “Novo BNDES” por Barbosa, Aidar e Souza. Além disso, as pautas ambiental e social ganharam nova proeminência e passaram a ter escopo transversal nas atividades do Banco.
Essa estratégia se alinha à agenda internacional de contenção da crise climática, que se fortaleceu a partir de 2015 com a Agenda 2030 e com o Acordo de Paris.
Nesse contexto, o funding verde é um recurso fundamental para a expansão da atuação do Banco na economia verde e no desenvolvimento social, além de servir como diversificação de fontes de recursos.
As captações no mercado internacional se tornaram uma nova fonte relevante de recursos. Em 2024, o país captou R$ 10,4 bilhões pelo Fundo Clima na forma de títulos soberanos sustentáveis emitidos pelo Tesouro Nacional. No primeiro semestre de 2025, o Tesouro fez uma nova captação e mais R$ 10,9 bilhões foram repassados ao BNDES. Com esses dois aportes, ao fim do primeiro semestre de 2025 o passivo do BNDES referente ao Fundo Clima era de R$ 24,8 bilhões.
Além do Fundo Clima, merecem destaque as captações externas com instituições internacionais e o Fundo Amazônia. Praticamente suspensas entre 2018 e 2022, as captações externas foram retomadas em 2023, totalizando ao fim do primeiro semestre de 2025, um passivo de repasses de organismos internacionais e instituições multilaterais da ordem de R$ 35,7 bilhões, dos quais R$ 28,8 bilhões (80,6%) com contrapartida de investimento em desenvolvimento sustentável.
Essas captações externas servem como fonte de diversificação do funding do Banco. Parte delas conta com garantias da União e, em média, apresentavam em junho de 2025, uma taxa de juros média ponderada de 5,9% a.a., abaixo do mercado brasileiro e semelhante ao do Fundo Clima.
O BNDES tem contratos vigentes de R$ 65,8 bilhões de captações externas para o desenvolvimento sustentável, tendo sido a maior parte delas (R$ 40,9 bilhões) efetuada entre 2023 e o primeiro semestre de 2025. O volume das contratações recentes sinaliza o peso crescente desse mecanismo de financiamento. A diferença entre o contratado e o repasse se deve ao cronograma de desembolso das operações contratadas.
Por último, as doações para o Fundo Amazônia também foram retomadas a partir de 2023 – após um período de suspensão da análise de novos projetos em função da dissolução da estrutura de governança do fundo. Com a reestruturação de sua governança e a nova administração do Banco, o fundo voltou a receber doações e os seus recursos passaram de R$ 4 bilhões ao fim de 2022 para R$ 6,1 bilhões em junho de 2025.
Acordos com instituições internacionais e organismos multilaterais direcionados para o desenvolvimento sustentável
Fonte: Demonstrações financeiras individuais e consolidadas em 30 de junho de 2025 do BNDES e dados de contratos vigentes do Departamento de Captação do BNDES.
Notas: 1. Os empréstimos estão em moeda estrangeira e o valor em reais foi calculado com base na taxa de câmbio do dia 30.6.2025. 2. Seguindo a metodologia oficial apresentada no portal do BNDES, “economia verde” inclui atividades de fomento a energias renováveis e hidrelétricas; descarbonização do transporte de passageiros e de carga; gestão da água, esgoto e resíduos sólidos; manejo florestal, reflorestamento e preservação de florestas; agricultura sustentável; e adaptação a mudanças climáticas e gestão de risco de desastres. Já “desenvolvimento social” inclui saúde; educação; inclusão produtiva; gestão pública; desenvolvimento urbano com atividades como saneamento ambiental e transporte público; e incentivo à responsabilidade social empresarial
Somando as captações externas com instituições estrangeiras com direcionamento sustentável, o Fundo Clima e o Fundo Amazônia, o BNDES contava com R$ 59,8 bilhões em funding sustentável em seu passivo ao fim do primeiro semestre de 2025 – volume equivalente a 8,4% do passivo e 6,7% do funding total do Banco. A entrada total das três fontes nos últimos três semestres foi de aproximadamente R$ 37,9 bilhões, isto é, 25,4% da entrada líquida de recursos no período e 45,2% da entrada líquida se excluídos os recursos do FAT.
Esse tipo de funding é ainda relevante pelo seu caráter incentivado e/ou não reembolsável, o que reforça seu potencial indutor, já que abre espaço para o desenho de incentivos à mobilização de capital privado para atividades ambientais e estratégicas do BNDES.
O uso de funding verde deve aumentar, dado o potencial ambiental brasileiro e seu custo incentivado, que possibilita sedimentar a economia verde como parte fundamental do nosso modelo de desenvolvimento.
Por outro lado, a dependência de fontes externas para esses recursos impõe riscos em relação a desequilíbrios externos e a mudanças geopolíticas, de modo que é importante analisar potenciais fontes de recursos domésticas e incentivadas para o desenvolvimento sustentável, já que elas podem vir a ser fundamentais para possibilitar investimentos à altura do desafio climático.