O contexto mundial atual tem sido marcado pelo agravamento das tensões geopolíticas em um ambiente de acirramento da competição comercial e de uso de restrições econômicas nos mercados nacionais como forma de obtenção de vantagens estratégicas. Soma-se a isso o enfraquecimento da capacidade das instituições multilaterais existentes em administrar conflitos, com a fragmentação de relações históricas entre países.
Por que usar o Global Risks Report?
O GRR, produzido pelo World Economic Forum, tem se consolidado como grande referência em mapeamento das percepções de risco. A publicação entende risco mundial como a possibilidade de ocorrência de um evento (ou situação) com impacto negativo considerável no produto interno bruto (PIB), na população ou nos recursos naturais mundiais.
As avaliações do GRR são feitas a partir da pesquisa anual Global Risks Perceptions Survey (GRPS), tendo a última contado com a participação de mais de 1.300 especialistas de diferentes países, entre membros de universidades, empresas, governos, organizações internacionais e sociedade civil.
As respostas são coletadas durante o segundo semestre de cada ano e seus resultados são divulgados em janeiro do ano seguinte. O GRR 2026, por exemplo, tem como referência a GRPS 2025-2026, realizada entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025.
Os riscos mundiais são agrupados nas dimensões social, tecnológica, geopolítica, ambiental e econômica. Para cada risco, os respondentes classificam suas percepções sobre a severidade de seu impacto em uma escala de um (baixa severidade) a sete (alta severidade). O resultado corresponde à média simples das respostas.
O panorama global dos riscos nos horizontes no curto e longo prazos
A preocupação com o cenário mundial no horizonte de dois anos à frente (2028) aumentou pelo segundo ano consecutivo. Do GRR 2025 para o GRR 2026, a soma dos percentuais de avaliações do cenário como tempestuoso e turbulento aumentou 14 pontos (de 36% para 50%), ao passo que a soma de suas avaliações como calmo e estável diminuiu dois pontos (de 12% para 10%). Em que pese essa piora, o sentimento atual (GRR 2026) ainda é melhor que no GRR 2023, quando 82% dos entrevistados classificaram o cenário como tempestuoso ou turbulento.
Em surpreendente contraste, do GRR 2025 para o GRR 2026, a preocupação diminuiu para o horizonte de dez anos à frente (2036), com a redução de cinco pontos percentuais (de 62% para 57%) na soma das avaliações do cenário como tempestuoso e turbulento. Ao comparar o GRR 2026 com o GRR 2023, o desempenho que chama atenção é a queda de nove pontos percentuais da soma das avaliações do cenário como calmo e estável (de 20% para 11%) na perspectiva de dez anos à frente.
Percepção dos cenários dois e dez anos à frente
Fonte: Elaboração própria com base em WEF (2023; 2024; 2025; 2026). Nota: Os percentuais em cada coluna podem não somar 100 por questão de arredondamento dos números.
As mudanças na percepção de risco no horizonte de dois anos à frente
A possibilidade de um confronto geoeconômico passou a ser o maior risco no horizonte até 2028, subindo oito posições no ranking da GRPS em comparação com o levantamento do ano passado. Esse desempenho foi acompanhado pela elevação dos riscos sociais de erosão de direitos humanos, de polarização social e de desigualdade. Os riscos associados à dimensão econômica de recessão e inflação também tiveram aumento significativo.
Outro crescimento foi registrado nos riscos da dimensão tecnológica de desinformação e insegurança cibernética, que denotam os desafios existentes das instituições de coibir o uso abusivo ou mal-intencionado das tecnologias digitais.
A única dimensão na qual houve queda na maioria dos riscos foi a ambiental. Esse comportamento contrasta com o fato de os três últimos anos terem sido os mais quentes do planeta desde 1850 (ano inicial da medição dessa temperatura).
Percepção dos riscos no horizonte de dois anos: mudanças no ranking
Fonte: Elaboração própria com base em WEF (2023; 2024; 2025; 2026). Nota: Os valores entre parênteses mostram a posição do item no ranking de maiores riscos. A área cinza elenca os dez maiores riscos em cada avaliação anual. Abaixo dessa área estão os itens que estiveram entre os dez maiores riscos em pelo menos um dos anos analisados, mas não no ano em questão.
As mudanças na percepção de risco no horizonte de dez anos à frente
A severidade atribuída aos riscos ambientais aumenta significativamente quando se migra do horizonte de curto prazo (dois anos) para o de longo prazo (dez anos). Ainda assim, os riscos ambientais, que ocupavam as quatro primeiras posições no ranking no GRR 2025, só ocupam as três primeiras no GRR 2026. Ao comparar os GRR 2023 e 2026, chama atenção a forte queda no risco atribuído aos sistemas de planeta.
Percepção dos riscos ambientais no longo prazo
Fonte: Elaboração própria com base em WEF (2023; 2024; 2025; 2026).
As demais novidades no ranking no que concerne as primeiras colocações trazidas pelo GRR 2026 vieram da subida de uma posição de cada um dos riscos na dimensão tecnológica e da queda de uma posição da “polarização social”. Em todos os GRR considerados, não há qualquer risco da dimensão econômica entre os dez maiores no horizonte de dez anos.
Na dimensão geopolítica, o risco de confrontos geoeconômicos continuou bem longe das primeiras posições, caindo de 18º para 19º no ranking, além de ter diminuído a sua severidade.
Percepção dos riscos no horizonte de dez anos: mudanças no ranking
Fonte: Elaboração própria com base em WEF (2023; 2024; 2025; 2026). Nota: Os valores entre parênteses correspondem à posição do item no ranking de maiores riscos. A área cinza elenca os dez maiores riscos em cada avaliação anual. Abaixo dessa área estão os itens que estiveram entre os dez maiores riscos em pelo menos um dos anos analisados, mas não estão no ano em questão.
Percepções atuais dos riscos mundiais de curto e longo prazo (GRR 2026)
Em um contexto mundial de grande incerteza, sobretudo na dimensão geopolítica, em meio à inoperância das instituições multilaterais existentes para lidar com os riscos atuais, registra-se o seguinte retrato referente à evolução das percepções mundiais acerca dos maiores riscos globais:
Cenário global
Enquanto a percepção de risco acerca do cenário global no curto prazo aumentou pelo segundo ano consecutivo, houve uma diminuição modesta na percepção de risco desse cenário no longo prazo.
Confronto geoeconômico
A diferença entre o risco de confronto geoeconômico no curto prazo (alta severidade) e no longo prazo (redução da severidade) indica que o atual uso de medidas econômicas, protecionismo comercial e restrição a movimentos de capital para a obtenção de vantagens estratégicas na geopolítica mundial tem impactado fortemente o risco global de curto prazo.
Riscos ambientais
As severidades atribuídas aos riscos ambientais no curto prazo tiveram uma queda expressiva do relatório de 2023 para o de 2026. A dimensão ambiental continua a liderar os riscos globais no longo prazo, mas com redução substancial na severidade atribuída ao risco associado aos sistemas do planeta. Tal percepção é preocupante em um contexto em que já se registrou aumento de 1,5 grau Celsius acima do nível pré-industrial – limite estabelecido pelo Acordo de Paris.
Riscos tecnológicos
Os riscos na dimensão tecnológica continuaram entre os maiores no ranking, com o GRR 2026 passando a considerar também as possibilidades de que os avanços na computação quântica levem ao acirramento das rivalidades estratégicas, das desigualdades econômicas e da polarização política.
Riscos econômicos
Houve aumento na severidade dos riscos de recessão e de inflação no horizonte no curto prazo, diante das elevações de tarifas de importação por motivações de estratégia nacional, que têm caracterizado o contexto geopolítico multipolar atual. No entanto, tais riscos continuam, pelo segundo ano consecutivo, fora da lista dos dez maiores no ranking, em nítido contraste com a avaliação do GRR 2023, quando a inflação era o maior risco no curto prazo, no contexto pós-pandemia.
Riscos sociais
A dimensão social responde por quatro entre os dez maiores riscos no curto prazo, com destaque para a ameaça de polarização social, em terceiro no ranking.