A desigualdade regional é uma questão central do desenvolvimento econômico. Em economias continentais, como a brasileira, o encadeamento das cadeias produtivas entre diferentes regiões do país se torna uma questão muito relevante, não apenas do ponto de vista do bem-estar das diferentes regiões, como também do ponto de vista da distribuição espacial dos efeitos de políticas de desenvolvimento.
Metodologia para a construção de matrizes de insumo-produto estaduais
A metodologia utilizada para este estudo consistiu na construção de matrizes de consumo intermediário interno e externo às 27 unidades federativas brasileiras, para 12 setores, relativas ao ano de 2023. Para isso, foram utilizados os dados das tabelas regionais e das tabelas de recursos e usos (TRU) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a metodologia de regionalização de matrizes de consumo intermediário, proposta por Furtado, Lima e Lopes, e a abertura da tabela de usos por uso nacional e importado, realizada nas estimações de matrizes de insumo-produto (MIP) nacionais por Alves-Passoni e Freitas.
Essa abordagem é vantajosa por ser aplicável aos dados mais atuais das TRUs, usualmente disponibilizados com maior antecedência do que as TRUs inter-regionais ou as MIPs nacionais. Nesse sentido, a análise concentrou-se em 2023, período mais recente de divulgação das contas regionais e das tabelas agregadas.
Dependências produtivas estaduais
O provimento de insumos no país é desigual. A figura a seguir apresenta a parcela do consumo intermediário nacional que é originária de outros estados, o que indica quanto cada estado depende dos demais para o seu abastecimento de insumos produtivos no que se refere aos insumos de origem nacional.
São Paulo apresenta a menor dependência, com apenas 17,5% dos seus insumos nacionais oriundos dos demais estados, seguido de Minas Gerais, com 23,8%. O Acre, por outro lado, é o estado mais dependente dos demais do ponto de vista produtivo, com 78,3% de seus insumos de origem nacional provenientes de fora do estado.
Parcela dos insumos de origem nacional provenientes de outros estados (2023)
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE e de Alves-Passoni e Freitas (https://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/view/2270).
A região Sul se destaca por apresentar estados com maior autonomia produtiva, enquanto os estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste utilizam menor parcela de insumos de origem interna.
Entretanto, vale pontuar duas exceções marcantes: a Bahia, maior estado do Nordeste, com apenas 34,8% de seus insumos nacionais vindos de outros estados, e o Amazonas, com 34,3%.
O caso do Amazonas pode ser explicado pela importância econômica da Zona Franca de Manaus no provimento de insumos. O incentivo fiscal à importação na região estimula a entrada de mercadorias estrangeiras. Esse resultado aparece mesmo quando se analisam apenas os insumos obtidos nacionalmente, já que muitas empresas se especializam na importação de produtos para revenda, na forma de insumos, a outras empresas locais, o que caracteriza a transação como uma compra regional.
Já o caso da Bahia parece expressar a heterogeneidade da região nordestina. Responsável por 3,9% do produto interno bruto (PIB) nacional em 2023, o estado apresenta o sétimo maior PIB do país e o primeiro entre os estados do Norte e Nordeste. É também o quarto estado mais populoso do Brasil e o quinto maior em área. É possível que a própria magnitude produtiva da economia baiana seja responsável por economias de escala e encadeamento, permitindo menor nível de dependência interestadual, conclusão que dependeria de uma investigação mais profunda.
Outro resultado interessante é o uso elevado de insumos de outros estados pelo Rio de Janeiro. Embora detenha a segunda maior economia do país, mais da metade dos insumos nacionais do Rio de Janeiro (52,1%) são de origem externa. Uma hipótese é a alta participação de serviços e da indústria extrativa em seu PIB, com menor presença de indústrias de base provedoras de insumos produtivos – possivelmente adquiridos de São Paulo e Minas Gerais devido à proximidade geográfica.
Encadeamentos setoriais e os coeficientes inter-regionais
Ao avaliarmos quanto uma unidade a mais na produção de um estado ou de um setor específico dentro de um estado gera de consumo intermediário para o resto do país, observa-se que os estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste demandam mais do país do que os das regiões Sul e Sudeste.
Coeficiente de consumo intermediário interestadual por unidade produzida (R$) – produção total do estado (2023)
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE e de Alves-Passoni e Freitas (https://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/view/2270).
Ao analisar o coeficiente para as economias estaduais totais, percebe-se que um aumento de R$ 1,00 de produção estadual pode gerar de R$ 0,08 (São Paulo) a R$ 0,27 (Acre) em demanda por insumos do resto do país. As desigualdades regionais evidenciam que, devido à concentração produtiva no eixo Sul-Sudeste, estímulos econômicos nas demais regiões tendem a gerar mais efeitos positivos sobre o eixo Sul-Sudeste do que o oposto, com as demais regiões passando a demandar mais insumos.
Esses valores são mais homogêneos e relativamente menores para o total da economia do que para a agropecuária e a indústria de transformação. Isso se dá pois os setores de serviço têm menor encadeamento para trás, isto é, demandam menos insumos no geral. Como esses setores apresentam um peso relevante na maioria dos estados, um aumento da produção geral do estado repercute menos em demanda aos demais do que o mesmo aumento focalizado em setores de maior encadeamento.
Indústrias de transformação
As indústrias de transformação apresentam o maior encadeamento inter-regional, com coeficientes chegando a 0,46 e 0,44 no Distrito Federal e no Acre, respectivamente, e mínimo de 0,13 em São Paulo. Tal resultado advém das características do setor, marcado por maior encadeamento produtivo e alta demanda por insumos no geral.
Nota-se que os resultados em relação à dependência de insumos dos demais estados são heterogêneos: Acre, Roraima, Amapá e Distrito Federal se mostram bastante dependentes, enquanto São Paulo, Minas Gerais e a região Sul demandam pouco dos demais estados por unidade produzida.
Em parte, esses resultados expressam a concentração regional da própria indústria de transformação brasileira. A região Sudeste é responsável por 53,6% do valor bruto da produção (VBP) do setor, sendo São Paulo sozinho responsável por 36,0%. A região Norte representa 4,7% da produção, o Centro-Oeste, 7,2% e o Nordeste, 11%.
Coeficiente de consumo intermediário interestadual por unidade produzida (R$) – indústrias de transformação (2023)
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE e de Alves-Passoni e Freitas (https://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/view/2270).
Agropecuária
Na agropecuária, observa-se, em média, um menor coeficiente de consumo intermediário inter-regional do que na indústria, já que esse setor é geralmente caracterizado por alta importação e cadeias mais curtas de insumos do que a indústria de transformação.
O Acre é o estado com maior coeficiente interestadual (R$ 0,32 para cada R$ 1,00 produzido). No caso do Amazonas, o coeficiente interestadual é marcadamente menor do que a média da produção total do estado, o que possivelmente é resultado da preferência pela importação de insumos agrícolas no caso da Zona Franca de Manaus.
Por outro lado, estados com agropecuária mais intensiva, como o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul são exceções, com demanda externa por unidade de produção em patamar similar ao de suas indústrias de transformação.
O Centro-Oeste detém a maior participação no VBP do setor (29,5%), com destaque para o Mato Grosso (15,3%), seguido por São Paulo (11,4%) e Minas Gerais (10,8%). Outro estado com resultado interessante na agropecuária é Pernambuco, com coeficiente interestadual marcadamente menor do que os vizinhos nordestinos, embora represente apenas 1,7% do VBP nacional.
Coeficiente de consumo intermediário interestadual por unidade produzida (R$) – agropecuária (2023)
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IBGE e de Alves-Passoni e Freitas (https://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/view/2270).
Conclusão: encadeamento regional e políticas públicas
Os dados sobre encadeamentos estaduais da economia brasileira e os vínculos produtivos entre estados são fundamentais para o planejamento de redução de desigualdades regionais, assim como para a análise de impacto de políticas de âmbito estadual ou regional.
Ademais, políticas de redução de desigualdade regional ou auxílios emergenciais para tragédias locais – cada vez mais comuns pelo aquecimento global – poderiam se beneficiar da consideração dos efeitos espaciais das cadeias produtivas em que os estados se inserem.