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Estudos especiais Post

Análise comparada da taxa de participação brasileira no mercado de trabalho

O Estudo especial do BNDES 71 analisa a taxa de participação da economia brasileira no mercado de trabalho em comparação com uma amostra de 15 países de diferentes continentes e estruturas etárias e econômicas distintas.

A taxa de participação é um indicador relativamente simples que traduz em um número o grau de engajamento da população de um país com o mercado de trabalho nacional, mas também carrega uma série de determinantes.

Um mercado de trabalho aquecido, por exemplo, leva pessoas que desistiram de buscar emprego a retornar à força de trabalho. Além desse componente cíclico, a estrutura etária e educacional da população do país, aspectos culturais e de gênero e a abrangência do Estado de bem-estar nacional também podem atuar como determinantes desse indicador.

O que é a taxa de participação?

A taxa de participação de uma economia é definida como a razão entre a força de trabalho ou população economicamente ativa (PEA) – isto é, qualquer pessoa que esteja ocupada ou desocupada, mas procurando emprego – e a população em idade ativa (PIA).

 

A população em idade ativa é a totalidade da população acima de uma certa idade. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, considera ativa a população acima de 15 anos.

Evolução da taxa de participação no pós-pandemia


No Brasil, apesar do relativo aquecimento do mercado de trabalho nos últimos anos, com queda nas taxas de desemprego e informalidade e ganhos reais de salários, a taxa de participação na força de trabalho ainda não retornou aos níveis observados no período pré-pandemia.

Evolução da taxa de participação no Brasil – 2012-2025

Fonte: Elaboração própria com base em IBGE. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/4092. Nota: Enquanto a OIT utiliza como PIA a população acima de 15 anos, para o IBGE ela engloba a população de 14 anos ou mais.

Fonte: Elaboração própria com base em IBGE. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/4092. Nota: Enquanto a OIT utiliza como PIA a população acima de 15 anos, para o IBGE ela engloba a população de 14 anos ou mais.


Esse comportamento tem suscitado uma série de discussões acerca de suas possíveis causas, entre as quais estão a majoração – tanto no valor quanto no número de beneficiários – de benefícios sociais e a mudança demográfica.

Embora não seja uma exclusividade da economia brasileira, esse comportamento não é uma tendência tão presente no cenário internacional, tendo um forte componente doméstico em sua explicação.

A queda na taxa de participação da economia brasileira entre 2019 e 2024 foi de 1,3%, ficando atrás apenas de Chile, Colômbia e Vietnã, e contrastando com o crescimento de 2,1% na média da amostra.

Variação percentual na taxa de participação (2019-2024)

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Taxa de participação no mercado de trabalho e estrutura etária


Apesar da queda no período pós-pandemia, a taxa de participação na força de trabalho da economia brasileira é relativamente alta em comparação com os demais países da amostra, ficando abaixo apenas de Japão, Dinamarca, Colômbia e Vietnã.

Taxa de participação da força de trabalho

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Uma das possíveis explicações para esse indicador relativamente alto pode ser dada pela estrutura demográfica do país, relativamente mais jovem do que a média. O Brasil conta com uma estrutura etária relativamente jovem em comparação com outros países, com parcela de participação acima da média nas faixas etárias entre 15 e 54 anos e abaixo da média a partir dos 55 anos.

Parcela de cada faixa etária na população em idade ativa (PIA)

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Ao considerar a parcela da população brasileira entre 25 e 54 anos – faixa etária considerada o auge do período produtivo do trabalhador ou prime working age – na PIA, o Brasil fica acima da média da amostra, abaixo apenas de Índia e África do Sul.

 

Taxa de participação no mercado de trabalho e gênero


Além da questão etária, a taxa de participação aponta uma série de desigualdades de gênero que precisam ser avaliadas.

Em relação à população masculina, o Brasil apresenta taxa de participação relativamente alta. Entretanto, a diferença em relação aos demais países está concentrada na faixa etária mais jovem: com exceção da Dinamarca, o Brasil tem a maior taxa de participação de jovens entre 15 e 24 anos, com a diferença para os demais países frequentemente de dois dígitos.

A situação, entretanto, muda quando olhamos para as coortes de 25 a 54 e, principalmente, de 55 a 64 anos: nessas faixas, a taxa de participação dos homens brasileiros é consideravelmente mais baixa em relação à amostra, inclusive em relação aos países latino-americanos com estruturas etárias similares.

Taxa de participação em cada faixa etária de países selecionados (homens)

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Essa estrutura da taxa de participação brasileira pode ter consequências negativas para o desenvolvimento econômico, pois a entrada precoce no mercado de trabalho pode muitas vezes se dar em detrimento da continuidade da educação, o que afeta negativamente a produtividade da mão de obra e a própria taxa de participação nos anos subsequentes.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Educação de 2024, 8,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não haviam completado o ensino médio em 2024. O principal motivo para o abandono escolar declarado pelos jovens é a necessidade de trabalhar.

A dinâmica observada no mercado de trabalho masculino é confirmada, de maneira ainda mais acentuada, no feminino: enquanto a taxa de participação da população masculina entre 25 e 54 anos é 1,9% inferior à média dos demais países, para as mulheres essa diferença é de 6,2%. Para a coorte entre 55 e 64 anos, a diferença é de 8,5% e 13,9% para homens e mulheres, respectivamente.


Taxa de participação em cada faixa etária de países selecionados (mulheres)

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Assim, a tendência de participação relativamente baixa da população brasileira nos anos de maior produtividade é reforçada pelo marcador de gênero, possivelmente indicando a relação de gênero ainda muito desigual nas responsabilidades reprodutivas e domésticas. Nesse sentido, políticas públicas que visem mitigar essas desigualdades podem ter efeito positivo sobre a taxa de participação da economia brasileira.

Demografia jovem e alta taxa de participação brasileira


Por fim, fazemos um exercício hipotético analisando o que ocorreria com a taxa de participação brasileira caso, mantendo a distribuição populacional brasileira por idade e sexo, tivéssemos a taxa de participação intragrupo – isto é, por faixa etária e sexo – de cada um dos países de referência. Esse exercício nos dá um “Brasil hipotético” para cada país da amostra, o que pode fornecer uma melhor dimensão daquilo que determina a alta taxa de participação brasileira na amostra: a demografia relativamente jovem ou a alta participação para cada coorte.

Brasil hipotético versus real

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.

Fonte: Elaboração própria com base em ILO. Disponível em: https://rshiny.ilo.org/dataexplorer83/.


Na média, a taxa de participação da economia brasileira seria 1,41% superior à atual se, com a estrutura etária vigente, o Brasil tivesse a taxa de participação intragrupo média dos demais países da amostra. A demografia relativamente jovem, com alta parcela de pessoas entre 25 e 54 anos, é um grande determinante da taxa de participação relativamente alta do Brasil na comparação internacional.

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