O apoio emergencial a um estado beneficia o resto do país?
O Estudo especial do BNDES 76 analisa como um choque no consumo de um estado impacta a demanda do resto do país, usando como exemplo o caso do Rio Grande do Sul.
O apoio emergencial a um estado beneficia o resto do país?
O Estudo especial do BNDES 76 analisa como um choque no consumo de um estado impacta a demanda do resto do país, usando como exemplo o caso do Rio Grande do Sul.
Com o aumento da frequência de eventos climáticos extremos localizados, as políticas locais de adaptação ambiental têm sido ampliadas. Esse foi o caso do apoio emergencial ao estado do Rio Grande do Sul, atingido por volumes massivos de chuva em 2024.
Por meio da extensão da metodologia de estimação de matrizes de insumo-produto inter-regionais descrita do Estudo especial do BNDES 73, é possível analisar o impacto do choque de consumo de um estado sobre o restante do país a partir dos encadeamentos produtivos inter-regionais. Como exemplo, usa-se o apoio à situação emergencial do Rio Grande do Sul.
As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul podem ser analisadas do ponto de vista econômico como um choque negativo na renda do estado. É razoável supor que um choque de renda tenha um impacto de demanda equivalente à propensão das famílias a consumir. Para simplificar, são apresentados os resultados na análise de impacto de R$ 1,00 a mais no consumo das famílias do Rio Grande do Sul sobre os demais estados e setores.
O consumo das famílias do Rio Grande do Sul é fortemente concentrado em bens das indústrias de transformação (50,6%), seguidos por outros serviços (19,8%) e eletricidade, água, gás e esgoto (7,4%). Esses valores são relativamente próximos à média nacional, medida pelos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE. Como o consumo das famílias mobiliza a indústria de transformação, um setor com alto consumo intermediário, espera-se que o multiplicador de importação de produtos intermediários seja alto.
Para analisar o impacto do consumo das famílias do Rio Grande do Sul sobre os demais estados, devemos distinguir a importação do estado para consumo final e para consumo intermediário. A cada R$ 1,00 em consumo final das famílias do Rio Grande do Sul, R$ 0,62 é direcionado internamente ao estado, R$ 0,23 a outros estados brasileiros e R$ 0,16 é gasto com produtos finais produzidos fora do país.
Além da demanda direta de produtos finais de outros estados, o estímulo de demanda final também gera R$ 0,70 em demanda intermediária por produtos produzidos em outros estados. Isso significa que cada R$ 1,00 adicionado ao consumo das famílias do Rio Grande do Sul gera R$ 0,93 (R$ 0,23 de produtos finais + R$ 0,70 de produtos intermediários) em demanda para o resto do país. Isso se dá pelo forte efeito multiplicador inter-regional do consumo das famílias do estado, que se concentra em bens industrializados – os quais, geralmente, dependem de mais insumos. Isso faz com que cada R$ 1,00 de consumo final do estado reverbere em R$ 1,06 em consumo intermediário doméstico, sendo apenas R$ 0,36 fornecido internamente ao estado (e os R$0,70 restante fornecido de outros estados).
Analisando a distribuição espacial do impacto de R$ 1,00 a mais no consumo das famílias do Rio Grande do Sul sobre a demanda recebida pelos outros estados brasileiros, percebe-se que o estado mais afetado é São Paulo. Ele recebe mais de um terço, R$ 0,34, da demanda inter-regional –, seguido pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais, com R$ 0,09 e R$ 0,08, respectivamente.
Fonte: Elaboração própria.
Esse resultado, que se repete para os diversos setores, expressa a concentração produtiva brasileira. Como São Paulo concentra aproximadamente um terço da produção nacional e a metodologia distribui o impacto inter-regional de acordo com o peso de cada estado naquele setor, São Paulo destoa como o mais impactado.
Podemos também analisar o impacto desse aumento no consumo de forma setorial. Para cada R$ 1,00 em consumo do Rio Grande do Sul, a sua demanda por produtos dos demais estados foi de R$ 0,25 para a indústria de transformação, R$ 0,19 para comércio e reparação de veículos, e R$ 0,18 para outros serviços. Do outro lado, a agropecuária e a indústria extrativa dos demais estados receberam apenas R$ 0,01 e R$ 0,02 em nova demanda, respectivamente. O forte peso do comércio expressa sua margem sobre os bens industrializados, que têm maior presença na cesta de consumo das famílias.
A distribuição de impacto para a indústria de transformação é bastante semelhante à do total dos setores, o que faz sentido considerando que seu peso dominante influencia de forma mais marcada a distribuição regional da demanda agregada. As regiões Sul e Sudeste são as mais afetadas, com o estado de São Paulo sendo o mais impactado.
Fonte: Elaboração própria.
Apesar de a agropecuária e a indústria extrativa serem setores menos impactados, é interessante analisá-los pelo seu padrão diferente de distribuição espacial.
Para a indústria extrativa, o estado do Rio de Janeiro é nitidamente o mais afetado, sendo seguido por Minas Gerais e Pará. O Rio de Janeiro tem papel determinante nesse setor pela alta presença de petróleo e gás natural no estado, enquanto Minas Gerais e Pará se destacam na exportação de minérios. Como uma parcela ínfima do consumo das famílias vai para bens da indústria extrativa, esse impacto representa os produtos da indústria extrativa demandados como consumo intermediário pela produção do Rio Grande do Sul.
Fonte: Elaboração própria.
Já na agropecuária, vemos o grande peso do Mato Grosso, seguido por São Paulo, Minas Gerais e Paraná, com impactos semelhantes. O peso de produtos da agropecuária no consumo das famílias do Rio Grande do Sul é de 2,9% Isso se dá porque a maior parte do que consumimos de alimentos vem da indústria alimentícia, e não diretamente da agropecuária. Nesse sentido, o aumento da demanda da agropecuária que vemos vem principalmente como consumo intermediário do aumento da demanda de bens da indústria alimentícia.
Fonte: Elaboração própria.
O fato de que cada R$ 1,00 de aumento de consumo do Rio Grande do Sul gera R$ 0,93 em demanda para os outros estados demonstra que programas com direcionamento local, como o realizado em 2024 para o Rio Grande do Sul, têm um aspecto fundamental não apenas para o estado em si, como também para os demais estados do país.
Programas emergenciais de auxílio aos afetados por tragédias ambientais, além de evitarem o agravamento da situação das pessoas diretamente afetadas (ajudando a compensar perdas de renda, por exemplo), apresentam ganhos importantes não apenas ao estado diretamente beneficiado, mas também a seus fornecedores produtivos em todo o país.
Tal conclusão é importante para o planejamento de redução de desigualdades regionais e para a análise de impacto de políticas de âmbito estadual ou regional.
A análise de impactos econômicos a partir de multiplicadores é uma das principais aplicações dos modelos de insumo-produto e por meio de sua extensão ao âmbito inter-regional é possível avaliar como um choque em um estado pode transbordar para as demais regiões do país (efeito spillover).
Para analisar esse impacto, é necessário definir que parcelas de produtos finais e de produtos intermediários demandados por um estado estão direcionadas ao resto do país (em oposição ao que é suprido pelo próprio estado).
A venda de produtos intermediários a outro estado é relevante, já que é equivalente à venda de produtos finais: ambos funcionam como exportações de produtos pelo estado produtor, aumentando o PIB estadual, ainda .
As matrizes estimadas de consumo interestadual podem ser utilizadas para calcular o chamado multiplicador de Leontief inter-regional, que mede quanto um choque na demanda de um estado gera de consumo intermediário para o resto do país. Obtendo esse multiplicador, o próximo passo da análise consiste em identificar a estrutura setorial do componente da demanda no qual ocorre o choque e decompor qual parcela dele é direcionada a produtores internacionais, de outros estados e do estado analisado.
A metodologia foi aplicada ao ano mais recente de dados do IBGE: 2023. A análise para esse ano também é apropriada para o caso do Rio Grande do Sul, identificando a estrutura produtiva do estado logo antes do choque causado pelas chuvas extremas.
Os dados brasileiros, no entanto, têm uma importante limitação para a extensão dessa metodologia à análise de impacto: as tabelas regionais apresentam dados econômicos apenas pela ótica da produção, não contando com dados estaduais pela ótica da demanda. Para decompor uma estrutura setorial de consumo do estado do Rio Grande do Sul, portanto, foram utilizados os microdados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2017-2018 após sua compatibilização com o Sistema de contas nacionais utilizando o dicionário de Maciel, Cornélio e Costa.
Do ponto de vista prático, o choque sobre consumo é o componente da demanda com maior facilidade de abertura setorial por estado a partir das informações apresentadas pela POF. Do ponto de vista teórico, o consumo é um componente sobre o qual se espera impacto direto de diversos tipos de política pública. Isso porque várias políticas locais são direcionadas a geração de renda ou apresentam um efeito direto sobre ela, o que tende a induzir aumento análogo do consumo.
Foi privilegiado o choque no consumo das famílias tendo em vista que outros componentes da demanda final (como gasto do governo e exportações) tendem a ser menos impactados pelo choque de renda.
A forma de mensurar impactos ambientais é controversa na literatura. No entanto, ao estabelecer como foco apenas um efeito de demanda, ficamos mais próximos das análises convencionais de impacto em modelos de insumo-produto, não sendo necessário impor mudanças técnicas, mais imprevisíveis e difíceis de mensurar.
Para identificar o conteúdo doméstico do vetor de consumo, foram utilizados os dados da matriz de insumo-produto de 2018. Em seguida, foram estimadas as parcelas do consumo supridas interna e externamente ao estado, estendendo a metodologia de quociente locacional simples ajustado ao consumo das famílias. Assim, foi possível construir um vetor de consumo final intraestadual e outro inter-regional, direcionado ao restante do país.
Como os dados disponíveis não permitem identificar exatamente quanto é importado de cada estado do país, supôs-se que a demanda de um estado por produtos de um determinado setor será dividida proporcionalmente ao peso de cada estado na produção total daquele setor no país. Essa metodologia captura o efeito esperado de que estados com maior parcela em um determinado setor vão ser mais afetados pelo aumento da demanda por esse setor provinda de outra região. Entretanto, ela não consegue capturar o efeito de custos de transporte e o papel que a distância desempenha nesses encadeamentos inter-regionais, a principal limitação dessa metodologia.
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