A inflação é usualmente medida por um índice agregado de preços e tem como uma de suas funções sintetizar a variação do custo de vida médio das famílias. Essa medida é indispensável para o acompanhamento da conjuntura e para a condução da política monetária, mas não esgota a experiência inflacionária dos diferentes grupos sociais.
No Brasil, as diferenças entre as cestas de consumo ao longo da distribuição de renda são expressivas. A incidência da inflação depende da estrutura de consumo de cada família, isto é, dos bens e serviços que compõem sua cesta e do peso que cada item assume no orçamento. Assim, uma mesma dinâmica de preços pode produzir impactos substantivamente distintos sobre o poder de compra das famílias de acordo com sua renda.
A análise, que cobre o período de janeiro de 2012 a maio de 2026, mostra que a inflação acumulada alcançou 126,9% no primeiro decil e 110% no estrato mais alto da amostra – uma diferença de 16,9 pontos percentuais.
O resultado evidencia uma dimensão distributiva da inflação. Os ganhos reais de renda observados nos estratos inferiores foram relevantes no período, mas foram parcialmente reduzidos pela inflação, cuja incidência sobre sua cesta de consumo foi relativamente maior.
Estrutura de consumo: cestas distintas ao longo da distribuição de renda
A participação de alimentação e bebidas passa de 33,2% da cesta no primeiro decil para 13,9% no estrato mais alto. Em sentido oposto, transportes sobem de 13,1% para 34,5%, movimento associado sobretudo à maior presença de despesas com veículo próprio. A participação da habitação também é significativamente mais elevada entre os mais pobres, enquanto a rubrica de saúde apresenta peso total semelhante nos extremos, mas com composição interna distinta.
Participação de grupos de despesa na cesta de consumo por faixa de renda (%)
Fonte: Elaboração própria com base em POF 2017-2018.
Esse padrão impacta diretamente a exposição a choques de preços, já que bens essenciais têm, em geral, menor elasticidade-preço da demanda e menor substituibilidade do que bens e serviços consumidos pelos estratos superiores. Em consequência, choques de preços nos segmentos de bens essenciais tendem a se traduzir mais integralmente em variações no índice de inflação dos decis mais pobres, sem compensação por substituição entre produtos – um fenômeno que na literatura é denominado inflation inequality.
A composição interna das despesas e a vulnerabilidade orçamentária
Mesmo dentro de cada grupo de despesas, os itens consumidos apresentam diferenças relevantes, centrais para compreender os efeitos distributivos de choques de preços.
Itens selecionados na cesta de consumo: comparação entre D1 e D10c (%)
Fonte: Elaboração própria com base em POF 2017-2018.
A alimentação no domicílio, por exemplo, representa 24,5% da cesta do primeiro decil e 7,3% da cesta do estrato superior. Na habitação, combustíveis domésticos e energia elétrica correspondem a 10,2% e 2,4 de cada cesta, respectivamente.
O peso agregado da saúde é próximo nos extremos da distribuição –15,2% no primeiro decil e 15,1% no estrato superior –, mas nos estratos inferiores predominam produtos farmacêuticos e de higiene, enquanto nos superiores destacam-se os planos privados de saúde.
Veículo próprio responde por 5,4% da cesta do primeiro decil e por 24,5% no topo, tornando os estratos superiores mais expostos aos preços de combustíveis para veículos, manutenção e serviços associados.
Razão entre consumo e renda familiar em diferentes faixas de renda
Segundo a POF, a razão entre consumo e renda domiciliar – levando em conta uma propensão média a consumir – decresce de 133,5% no primeiro decil para 26,7% no estrato mais alto. A relação acima de 100% no primeiro decil não deve ser interpretada isoladamente como consumo permanente acima da renda, pois ela pode refletir endividamento, uso de poupança e limitações de mensuração próprias da pesquisa, como a presença de autoconsumo e escambo de produtos, especialmente em áreas rurais.
Inflação própria por faixa de renda: maior pressão sobre os estratos inferiores
No período entre janeiro de 2012 e maio de 2026, a inflação acumulada apresenta trajetória declinante ao longo da distribuição: de 126,9% no primeiro decil para 110% no estrato superior. Para estimar a inflação própria de cada faixa, foram aplicados pesos específicos de consumo aos preços dos itens do IPCA, mantendo fixa a cesta de referência, o que permite isolar como as diferenças na composição do consumo alteram a incidência da inflação.
Inflação acumulada por faixa de renda, janeiro de 2012 a maio de 2026 (%)
Fonte: Elaboração própria com base em POF 2017-2018 e IPCA.
Em média simples, a inflação acumulada dos seis decis inferiores foi de 121,2%, ante 114,1% nos estratos superiores. A diferença não decorre de uma única rubrica, mas da combinação de itens com peso elevado nas cestas de menor renda e de variações de preço relevantes no período. Nesse cenário, alimentação, energia, combustíveis domésticos, produtos de higiene, medicamentos e transporte público tiveram papel mais destacado nas faixas inferiores.
Crescimento da renda e inflação: ganhos distributivos parcialmente atenuados
A diferenciação das cestas também importa para a mensuração do crescimento real da renda. Quando uma mesma trajetória nominal é deflacionada pelo índice específico de cada faixa, o resultado pode diferir daquele obtido com o IPCA agregado. Para o primeiro decil, a renda domiciliar real per capita avançou 53,2% com o deflator próprio e 58,9% com o IPCA agregado. A diferença de 5,7 pontos percentuais corresponde à parcela do ganho real que é superestimada ao se desconsiderar a inflação mais alta incidente sobre a cesta dos indivíduos com menor renda.
Crescimento da renda domiciliar real per capita por faixa de renda, com deflatores alternativos (%)
Fonte: Elaboração própria com base em Pnad Contínua, POF 2017-2018 e IPCA.
O padrão se repete, em intensidade decrescente, nos demais decis inferiores: as diferenças alcançam 3,2 pontos percentuais no segundo decil e 1,6 ponto no terceiro. Nos estratos superiores, ocorre o inverso: como a inflação própria é menor do que o IPCA agregado, o uso do índice médio subestima ligeiramente o crescimento real da renda. Esse resultado não invalida os avanços distributivos registrados no período, mas mostra que sua magnitude deve ser interpretada à luz da inflação efetivamente enfrentada por cada grupo.
O exercício compara trajetórias de renda nominais idênticas sob deflatores distintos. Ele não mede causalidade entre inflação e distribuição de renda, mas evidencia como diferentes estruturas de consumo alteram a leitura dos ganhos reais ao longo da distribuição.
Conclusão: a inflação varia com as faixas de renda
A evidência apresentada confirma a suposição de que a inflação não é neutra do ponto de vista distributivo. A cesta de consumo das famílias de menor renda concentra itens essenciais e pouco substituíveis no curto prazo, o que amplia a sensibilidade de seu poder de compra a choques em alimentos, energia, combustíveis domésticos, medicamentos e transporte público.
Entre janeiro de 2012 e maio de 2026, essa composição resultou em uma inflação acumulada 16,9 pontos percentuais maior no primeiro decil do que no estrato superior da distribuição. Isso representa uma inflação anual média 0,6% superior.
O acompanhamento de índices específicos por faixa de renda pode qualificar o diagnóstico conjuntural e ajudar a identificar de forma mais precisa os grupos com maior perda de poder de compra e contribuir para calibrar políticas de proteção social.
Investimentos que reduzam custos logísticos e perdas na cadeia de alimentos, ampliem a eficiência energética das residências, fortaleçam o transporte público, aumentem a resiliência climática e ampliem o acesso a medicamentos podem diminuir a exposição dos segmentos mais vulneráveis a choques de preços. Estabilidade de preços, inclusão social e transformação produtiva, nesse sentido, são dimensões complementares de uma estratégia de desenvolvimento.
Enquanto a inflação agregada informa a tendência geral dos preços, a inflação própria revela como essa tendência se transforma, de maneira desigual, em bem-estar e poder de compra ao longo da distribuição de renda.