Comentários sobre o PIB do 2T/2026
O Estudo especial do BNDES 80 apresenta comentários sobre o PIB do 2T/2026.
O Estudo especial do BNDES 80 apresenta comentários sobre o PIB do 2T/2026.
O produto interno bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 (2T/2026), em relação ao trimestre anterior, na série ajustada sazonalmente, resultado levemente acima da mediana das expectativas de mercado (0,4%).
Em valores correntes, o PIB totalizou R$ 3,426 trilhões no 2T/2026 e somou R$ 13,190 trilhões no acumulado de quatro trimestres.
Na comparação interanual, a economia avançou 2,0% em relação ao segundo trimestre de 2025 (2T/2025). Já o crescimento acumulado em quatro trimestres desacelerou para 1,9%, ante 2,0% na leitura anterior.
A desaceleração do PIB na margem no 2T/2026 em relação ao 1T/2026 – de 1,1% para 0,5% – parece indicar uma economia mais fraca nos próximos trimestres do ano e a continuidade do padrão de crescimento observado nos últimos três anos, caracterizado por expansão mais intensa no primeiro semestre e moderação no segundo.
Elaboração própria com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
Analisando os dados de margem, a agropecuária apresentou, no recorte da oferta agregada, alta de 2,8% no 2T/2026, após crescimento de 2,3% no trimestre anterior, e foi o setor de melhor desempenho no período. Segundo o IBGE, além do bom desempenho da pecuária, o resultado do trimestre decorreu de ganhos de produtividade em culturas com safras significativas no segundo trimestre, como soja (5,3%) e café (15,1%), que suplantaram o desempenho fraco de arroz (-11,3%), algodão (-6,7%) e milho (0,0%).
A indústria cresceu apenas 0,1% no 2T/2026 ante o trimestre anterior, após alta de 1,2% no 1T/2026.O crescimento foi sustentado exclusivamente pela indústria extrativa, que avançou 3,4%, refletindo o aumento na extração de petróleo e gás.
Os serviços registraram avanço de 0,2% no 2T/2026, na comparação com o trimestre anterior, já descontados os efeitos sazonais, configurando desaceleração em relação à expansão de 0,4% observada no 1T/2026. Os destaques positivos foram serviços de informação e comunicação, com alta de 2,1%, e transporte, armazenagem e correio, com 1,1%, seguidos de atividades imobiliárias (0,2%).
Em relação à demanda, as exportações líquidas contribuíram negativamente para o crescimento do PIB, com impacto de -0,4 p.p. no trimestre. As exportações caíram 0,8% no 2T/2026, enquanto as importações avançaram 1,8%. As vendas internas (demanda doméstica, excluída a variação de estoques) ficaram estagnadas, com contribuição nula (0,0 p.p.), ante 1,2 p.p. no trimestre anterior. Desse modo, o crescimento do trimestre foi integralmente sustentado pela variação de estoques, que respondeu por 0,9 p.p. – patamar semelhante ao do 1T/2026, mas agora sem o suporte da demanda final.
O consumo das famílias recuou 0,4% no 2T/2026, subtraindo 0,3 p.p. do crescimento do PIB no período e revertendo a alta de 0,8% observada no 1T/2026. O resultado reflete a desaceleração do rendimento do trabalho nos últimos meses, impactando, na margem, a renda disponível das famílias, e se sobrepondo a uma série de medidas expansionistas implementadas ao longo do ano: i) a ampliação da faixa de isenção do Imposto sobre a renda das pessoas físicas (IRPF) para rendimentos de até R$ 5 mil; ii) a continuidade do crescimento do crédito consignado no setor privado; iii) o reajuste do salário-mínimo e dos vencimentos de servidores públicos; e iv) a suspensão da “taxa das blusinhas” – o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 –, em vigor desde 13 de maio de 2026 por meio da Medida Provisória 1.357, cujo efeito parece ter se concentrado nas importações, que avançaram 1,8% no trimestre.
A formação bruta de capital fixo (FBCF) apresentou crescimento de 1,2% no 2T/2026, contribuindo com 0,2 p.p. para a alta do PIB. Segundo o IBGE, a alta do trimestre foi liderada pelo aumento da importação de bens de capital e pelo desenvolvimento de software. Já o consumo do governo cresceu 0,4%, contribuindo com 0,1 p.p. para o crescimento do PIB no trimestre.
A taxa de investimento (FBCF/PIB) ficou praticamente estável em 16,7% entre o 1T/2026 e o 2T/2026, quando considerado o acumulado em quatro trimestres a preços constantes de 2025. Na leitura trimestral, a taxa atingiu 16,1% do PIB a preços correntes, queda de 0,3 p.p. frente ao 1T/2026 – que teve influência positiva da importação de uma plataforma de petróleo – e recuo ante os 16,6% registrados no 2T/2025. O efeito isolado da importação da plataforma respondeu por um incremento de 0,4 p.p. da taxa de investimento no 1T/2026. Descontado esse efeito da base de comparação, a taxa de investimento a preços correntes teria ficado praticamente estável entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026.
O atual patamar da taxa de investimento (16,7%) segue baixo, sobretudo quando comparado ao fim de 2013, quando a FBCF atingiu valores em torno de 20% do PIB.
Para o ano fechado de 2026, o carry-over (carregamento estatístico) é de 1,8%. Isto é, se a economia brasileira apresentar variação nula na margem ao longo dos próximos dois trimestres de 2026 (e não houver revisão significativa da série com ajuste sazonal), o crescimento médio anual será de 1,8%. A mediana das expectativas de mercado para o crescimento da economia em 2026, coletadas no Boletim Focus de 28 de agosto de 2026 (BCB, 2026), apontava uma expansão de 1,92% em 2026, ao passo que a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda projeta crescimento de 2,3% (Brasil, 2026).
A expectativa é de que o ritmo mais moderado de crescimento se mantenha no segundo semestre de 2026, refletindo sobretudo os efeitos defasados e cumulativos da política monetária, ainda em território contracionista, e o ambiente internacional incerto. Os dados mais recentes do mercado de trabalho já apontam nessa direção: ainda que a taxa de desocupação siga em mínimas históricas, a geração de vagas formais perdeu força de forma expressiva em julho, e o rendimento real recuou na margem, sinalizando impulso de renda menor sobre o consumo das famílias à frente. Cabe destacar que algumas medidas de política econômica podem ainda, em algum grau, atenuar esse contexto para o resultado global de 2026.
O apoio emergencial a um estado beneficia o resto do país?
Uma análise da saúde financeira das empresas brasileiras não financeiras
Dependências dos estados brasileiros por insumos do resto do país: um estudo das cadeias inter-regionais