Por que a inflação de serviços pesa mais para as famílias de menor renda no Brasil?
Estudo especial do BNDES 84 mostra que diferenças de consumo levam famílias de distintas faixas de renda a experimentar inflações de serviços de forma diferente.
Estudo especial do BNDES 84 mostra que diferenças de consumo levam famílias de distintas faixas de renda a experimentar inflações de serviços de forma diferente.
A inflação de serviços ocupa lugar central no debate econômico brasileiro. Além de sua elevada persistência, ela está diretamente associada ao custo de atividades que fazem parte do cotidiano das famílias, como alimentação fora do domicílio, transporte, educação, recreação e serviços pessoais.
Quando se analisa a evolução desses preços, é comum assumir que todas as famílias enfrentam a mesma inflação de serviços. Mas essa percepção não corresponde à realidade. Embora os serviços representem uma parcela maior do consumo das famílias de renda elevada, a composição da cesta de gastos varia significativamente entre os grupos sociais.
A inflação de serviços mede a variação dos preços de atividades prestadas às famílias, como alimentação fora do domicílio, educação, serviços pessoais, transporte, recreação e comunicação.
O peso dos serviços no orçamento das famílias cresce à medida que a renda aumenta. Enquanto para o grupo de menor renda (D1) os serviços representam 16,6% do consumo, entre o 1% de maior renda (D10c), essa participação alcança 36%.
A relação entre consumo e renda, porém, modifica essa leitura, na medida em que os grupos mais pobres consomem uma parcela maior de sua renda. Embora os serviços ocupem parcela maior da cesta dos mais ricos, o comprometimento da renda com esses gastos é mais elevado nos estratos inferiores.
Na razão entre gastos com serviços e renda, o padrão é inverso ao observado para a participação na cesta de consumo: os serviços correspondem a 22% da renda no D1 e a 9,2% no D10c. Os dados indicam, portanto, maior espaço orçamentário nos estratos de renda mais elevada para absorver choques de preços e acumular patrimônio, enquanto nos grupos de menor renda o consumo corrente compromete parcela substancialmente maior da renda.
Fonte: Elaboração própria com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 do IBGE e na Nota Técnica do Banco Central do Brasil nº 57.
As diferenças na composição das cestas tornam-se economicamente relevantes porque os preços dos diversos serviços apresentaram trajetórias muito distintas entre janeiro de 2012 e julho de 2026.
Entre os subgrupos considerados, enquanto cursos, leitura e papelaria acumularam alta de 158,6%, e alimentação fora do domicílio, de 154,8%; comunicação apresentou variação acumulada de apenas 26,4%, muito inferior à dos demais grupos, como pode ser visto no gráfico abaixo.
Fonte: Elaboração própria com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 do IBGE e na Nota Técnica do Banco Central do Brasil nº 57.
A dispersão entre os subgrupos mostra porque a composição da cesta é determinante para a inflação efetivamente experimentada pelas famílias: quanto maior a presença de categorias cuja inflação superou a média de serviços, maior tende a ser a inflação associada àquela cesta.
Como cada faixa de renda consome serviços diferentes, e esses serviços não tiveram a mesma inflação, as famílias de menor renda acabaram enfrentando aumentos de preços maiores no período analisado.
Entre janeiro de 2012 e julho de 2026, a inflação de serviços associada à cesta do D1 alcançou 126,7%, ante 115,3% no D10c. A diferença acumulada entre os dois extremos foi, portanto, de 11,4 pontos percentuais (p.p.).
Fonte: Elaboração própria com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 do IBGE e na Nota Técnica do Banco Central do Brasil nº 57.
A principal explicação para essa diferença está na alimentação fora do domicílio. Como essa categoria tem peso elevado na cesta das famílias de menor renda (48,8% dos gastos com serviços do D1) e apresentou forte aumento de preços ao longo do período analisado, contribuiu para ampliar a inflação enfrentada por esse grupo.
Entre janeiro de 2012 e julho de 2026, a inflação acumulada de serviços alcançou 126,7% para o grupo de menor renda (D1) e 115,3% para o grupo de maior renda (D10c), uma diferença de 11,4 pontos percentuais.
Em conjunto, os resultados mostram que a análise distributiva da inflação deve considerar simultaneamente a taxa de inflação de cada categoria, a composição das cestas e o grau de comprometimento da renda. Duas famílias submetidas aos mesmos preços podem experimentar impactos econômicos distintos quando seus padrões de consumo e suas restrições orçamentárias são diferentes.
Essa dimensão é especialmente relevante no caso dos serviços, cuja composição muda fortemente com a renda e cujos preços apresentaram elevada dispersão no período analisado. A incorporação desse recorte pode contribuir para uma leitura mais precisa dos efeitos distributivos da inflação e de sua transmissão para o consumo das famílias.